Um disco empoeirado num domingo ocioso

20/03/2011

Coisas que só um domingo do mais puro ócio faz por você: almoçar ouvindo programa esportivo da Rádio Tupi, terminar de ler o livro da vez, passar os olhos numas revistas gringas e tirar a poeira de alguns discos. Hoje revisitei uns cinco da minha modesta e pacata coleção, entre eles “Throwing Cooper” do Live, uma daquelas bandas de rock formadas por universitários norte-americanos no final dos anos 80 e que estouraram com a brecha aberta no mainstream pelo pessoal de Seattle, na virada pros anos 90. Falando assim parece até que não gosto do Live. Na verdade não acho nada demais mesmo, é uma dessas bandas que vão perdendo o viço com o passar dos anos e somem do mapa, mesmo que ainda estejam oficialmente ativas. Foi o que aconteceu com o Live. Alguém sabe se continua?

O que sei é que gosto muito do “Throwing Cooper”, o segundo disco da banda. Principalmente porque  o comprei sem qualquer expectativa. Na época, por volta de 1995, o Live tinha um sucesso estouradaço, “Pain lies on the riverside”, do primeiro disco, e estava tentando emplacar um outro nas rádios-rock e MTV. Se não me engano, era “All over you”, canção meio dramática, com o vocalista Ed Kowalczyk quase chorando e instrumental um pouco mais pesado, naquela fórmula “calmaria+explosão+calmaria”  que o Nirvana tornou quase obrigatório naquele tempo. Enfim, era bem diferente do serelepe hit anterior, que tinha um groove quase faceiro.

Fato é que eu gostava dessa música e em 1995 os CDs eram bem baratos por aqui, e eu começava minha fase mais profícua de colecionador (que durou até 98, quando a paridade monetária foi pro espaço). Então, numa das minhas idas semanais à mitológica loja de discos Sabiá, na Amaral Peixoto, Downtown, Nictheroy City, encontrei o álbum. Me impressionei logo pela capa, uma dramática cena pintada pelo escocês Peter Howson chamada “Sisters of Mercy” (cuja obra conheci alguns anos depois, quando a inclusão digital chegou ao Morro do Cavalão). E daí veio o imponderável: comprei sem ouvir. A graça da Sabiá era escutar um milhão de CDs, sem ninguém te perturbando, e comprar algum ou não. Devia ter custado uns R$ 13, R$14, que era o preço padrão da época (quando eu pagava R$ 19 ou R$ 20, achava que estava sendo roubado). Cheguei em casa desconfiado de que tinha feito um mau negócio e coloquei o disquinho no combalido Aiwa. E logo de cara a soturna faixa de abertura, “The Dam at Otter Creek”, prendeu a minha atenção. Minutos depois surgiu “Selling the Drama” e tive a certeza de que o que viesse pela frente seria lucro. O dinheiro da merenda havia sido bem gasto e o CD não saiu do aparelho de som por muito tempo. “I Alone”, “Iris”, “Lightning Crashes” e “Top” completavam a sequência inicial, até chegar a música de trabalho, “All Over You”, a esta altura já meio desgastada. Dali pra frente, mais sete faixas, um típico lado B, com destaque para a pesadinha “Stage”. E “Throwing Cooper” acabou sendo um dos meus discos preferidos, apesar do nariz torto de um amigo ou outro que fosse mais radical aos preceitos de São Joãozinho Podre.

Pouco tempo se passou até que o Live lançasse outro disco, um tal de “Secret Samadhi”. Coube a um amigo comprar o disco no escuro dessa vez. E ele se deu mal. Gravei numa basf de 60 minutos, como era o costume na época, e não me causou qualquer impacto. A partir dali deixei de acompanhar a banda que, até onde fiquei sabendo, não lançou nenhum disco que chegasse perto do segundo. Esse que dei a tremenda sorte de comprar naquela inocente visita à Sabiá e que reencontrei neste domingo ocioso.

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Três cenas cariocas num 18 de janeiro

18/01/2011

A bordo do 497, na Lapa, sentido Cidade Nova. O motorista, com aquela pressa que só um chofer de coletivo consegue explicar, passa batido por um ponto de ônibus. Em pé, colado à porta e doido pra descer, um travesti protesta, interrompendo o silêncio da minha viagem:

– Ô piloto! Não ouviu a cordinha não? Tem gente aqui querendo soltar! Tá achando que tá levando boi aqui? Tá não, tá levando SERES HUMANOS!

– Sossega aí! – respondeu o motorista, sexagenário, correndo como se não houvesse amanhã.

– Tu tem que respeitar os SERES HUMANOS, seu velho escroto! Não é porque tua cabeça é branca que não vou te esculachar, teu velho filho da puta! Depois leva um soco nos meios dos córnios e não sabe por quê! – ameaçou, do alto de seus tacones.

O sinal fecha e o Penha-Cosme Velho dá uma freada de montanha russa de Orlando. O condutor, gentilmente, abre passagem e espera o traveco atingir a calçada para se despedir:

– Vai com o capeta, seu depravado!

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A bordo do 572, no Flamengo, sentido Glória. No fundo do ônibus, adolescentes, com aquele visual que algum tempo atrás se chamaria de “emo”, conversam sobre assuntos da atualidade, como o filme “Desenrola” e o Sisu. Até que um, espantado, comenta com os colegas:

– Lek, tem Mister Pizza aqui também! Caralho, achei que isso só existisse no Shopping da Gávea!

Outro mlk, bem mais descolado no selvagem mundo fora da Zona Sul, explica, professoral:

– É, tem lá no Shopping da Gávea e aqui também. Já sabia disso porque meu pai mora nessa esquina.

E voltaram a falar de “Desenrola”.

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Na farmácia da esquina da Cândido Mendes com a Rua da Glória. Os funcionários, já preparando para fechar a loja, observam atentamente duas jovens moradoras de rua, com residência fixa nos canteiros e plazuelas dos arredores da Praça Paris. Uma gordinha, com cara de abusada, e uma bem pequena, com aquele olhar de cola de sapateiro. Tensão no ar, elas perambulam pela loja. No caixa, uma senhora espera para pagar, com dinheiro, seus remedinhos. Mas refuga, e deixa transparecer o medo ao guardar a moedeira na bolsa. A gordinha com cara de abusada e um recipiente verde na mão a tranquiliza, com aquele jeitinho todo peculiar de falar:

– Tem medo não, tia. Viemo só comprar nosso Elsévi.

Porque beleza é fundamental.

De cabeça, aos 46 do segundo tempo

14/01/2011

Acho que o ano era 2002, quartas-de-final do Campeonato Brasileiro. Fluminense e Ponte Preta no Maracanã. Não lembro o placar (se não tenho nem certeza do ano…), mas sei que o Flu se classificou no sufoco, levando pressão no finalzinho, contra uma surpreendente Ponte. E do lado oposto, camisa branca com faixa diagonal preta, um camisa nove, Washington.

Oito anos depois, Washington desvia, de cabeça, a bola que Emerson colocaria no fundo da rede do Guarani, outro time de Campinas. Só que dessa vez o camisa nove (ou 99) estava de verde, branco e grená. Ao contrário do que aconteceu no parágrafo acima, o Flu foi campeão brasileiro em 2010.

Entre esses dois fatos, o meu momento mais emocionante como torcedor. Não só como torcedor no Maracanã, ou torcedor do Fluminense apenas, mas como torcedor de futebol. O Flu vencia o São Paulo por 2 a 1 num Maraca lotado, mas o resultado classificava o time de três cores paulista para a semifinal da Libertadores de 2008. Estava na arquibancada branca e sabia que a classificação viria quando Thiago Neves (que Deus tenha piedade de sua alma) se dirigiu ao córner direito para bater o escanteio. Sabia que a bola viajaria até a cabeça do nosso camisa nove e entraria. Só não sabia que era o último lance do jogo. Só eu não sabia, pelo visto. E mesmo sabendo de tudo isso, o gol do Washington, de cabeça, aos 46 do segundo tempo, eliminando o franco favorito e levando o Flu tão longe quanto nenhum tricolor ousaria sonhar no começo daquele ano, foi o meu momento mais emocionante. Mais que o pênalti isolado por Roberto Baggio em 94, mais que o gol de barriga em 95, mais que o gol de Emerson no ano passado. Difícil que outro momento supere o daquele gol de cabeça, que no final das contas não serviu pra nada.

Apesar de tê-lo avacalhado muito mais que elogiado e de não ter cantado sua musiquinha uma única vez desde que ele voltou ao Flu, depois de nos ter trocado pelo São Paulo em 2009, é com essa lembrança que eu fico agora, na despedida de Washington do futebol. Caneludo, irregular, desequilibrado emocionalmente, mas com garra e estrela. E mesmo que tenha feito muitos e decisivos gols com a camisa do Fluminense, é por aquele momento, aquela cabeçada aos 46 do segundo tempo, numa noite de maio de 2008, que serei eternamente agradecido ao Coração Valente.

Há um mês

05/01/2011
Conca, o troféu-humano

Conca, o troféu-humano

Há um mês caiu um temporal no Rio. Há um mês, acordei às 6h, mesmo sendo domingo. Há um mês, quase morri do coração. Pelo menos dez vezes ao longo do dia.

Há um mês, corri para pegar o trem e a viagem demorou tanto que parecia que eu estava indo para Santa Cruz de la Sierra. Há um mês, tomei um litro e meio de cerveja quente em dez minutos e a garganta continuava seca. Há um mês, sofria e só eu parecia não acreditar. E não acreditava mesmo.

Há um mês, abraçava meu padrinho, meus irmãos e quem mais estivesse em volta. Há um mês eu era apenas mais um na multidão. Há um mês, eu me escondi sob um mosaico de três cores. Há um mês, eu cantava e gritava. Há um mês, eu perdi a voz. Há um mês, eu quase chorei.

Há um mês, não tirava os olhos do cronômetro e me perdia no tempo. Cheguei ao estádio duas horas antes, e cada minuto valia por três, quatro, vinte e seis. Há um mês, aos dezoito do segundo tempo, Carlinhos avançou pela esquerda e cruzou pra área. Washington desviou de cabeça. Emerson, vulgo Sheik, foi sinistro e deu um chute seco com a esquerda. Já faz um mês que a bola passou por entre as pernas do zagueiro Alison e do goleiro Emerson. Mas pra mim até hoje ela está no fundo do gol do Guarani.

Há um mês Simon encerrava seu último jogo, o Cruzeiro virava uma partida em vão e o Corinthians deixava o campo olhando as próprias chuteiras. Há um mês, na Rua Irineu Marinho, preparavam a manchete: “Guerreiros campeões”. A da Rua do Riachuelo: “Fluzão tricampeão”. Mas certo estava quem, na Rua Santa Maria, colocou nas páginas, na noite ainda daquele 5 de dezembro: “Grandes são os outros, o Fluminense é enorme”. Há um mês, como há dois mil anos, sempre estaria certo quem citasse Nelson Rodrigues.

O surfista, o caneludo e o sinistro: pra história

O surfista, o caneludo e o sinistro: pra história

Há um mês, o Fluminense era campeão brasileiro de 2010. Há um mês, o placar eletrônico do Engenhão marcava Flu 1 X 0 Guarani, e acho que não deve ter mudado até agora. Não deveria mudar nunca mais.

Há um mês Conca era levantado como taça. Troféu em forma de gente. Há um mês Fred deixava o campo, tirava a faixa de capitão e colocava o relógio, para sofrer como as 40 mil testemunhas oculares. Há um mês Valência comia grama, Gum e Leandro Euzébio suavam sangue, Diguinho e Tartá se multiplicavam, Berna salvava e Mariano e Carlinhos corriam para que Conca, no final das contas, virasse troféu.

Há um mês eu lembrava do velho pôster no meu quarto. Em pé: Aldo, Paulo Victor, Duilio, Ricardo Gomes, Jandir e Branco. Agachados: Romerito, Delei, Washington, Assis e Tato. Há um mês pensava no meu pai relembrando o ataque de 70 com Cafuringa, Samarone, Flávio e Lula. “E Mickey, o reserva que fez três gols nos últimos três jogos”. E lembrei do meu avô e suas memórias de Fluminenses de Telê, Hércules, Romeu, Tim, Didi, Orlando Pingo de Ouro, Pinheiro, Altair, Castilho…

Há um mês eu lembrei que há um ano, um sábado, também não conseguia dormir. E pensei que pode ser verdade, quem espera sempre alcança. Há um mês, o Fluminense fazia a torcida querida vibrar de emoção
com o tricampeão.

São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar

04/12/2010

Passei 23 horas em São Paulo essa semana. Coisa rápida. Um jantar, um evento de trabalho, um almoço e duas pontes aéreas. Mas quero falar mesmo é do Rio de Janeiro. Porque só quando se chega ao Rio pelo Santos Dumont é que se vê realmente que isto aqui não é pouca coisa. Nada contra São Paulo, mas que alívio que dá ao perceber o avião já planando sobre o subúrbio, colocando quase lado a lado Engenhão e Maracanã, transformando a igreja da Penha num pedaço de maquete ao lado da estrada no topo do Alemão, que a TV Globo tornou mundialmente famosa. Arrepia ver do alto a Perimetral, a feira dos paraíbas, o Centro, a Ilha Fiscal, a Ponte, minha Niterói ao fundo, minha Glória de perto, até pousar na Guanabara, de frente para o Cristo. Poucas vezes realmente dei o devido valor à cidade, que não é a minha, mas que adoto mais a cada dia.

É senso comum associar esse momento da chegada ao Rio ao “Samba do avião”, do Jobim. Realmente, tem tudo a ver. Mas pra mim, a trilha sonora oficial da cidade não é essa nem aquela marchinha de carnaval. É “Saudades da Guanabara”, o samba-lamento de Moacyr Luz que traduz o banzo do carioca pela cidade-estado dos anos dourados, que acabou em algum momento do passado. Ouvir Moa cantando, como ontem, na estreia de sua roda de samba em General Severiano, “Brasil, tira as flexas do peito de meu padroeiro / Que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar” é de fazer tremer as pernas. Ainda mais nesses dias de “guerra do Rio”. Queria destacar aqui algum outro verso dessa genialidade em forma de canção, mas é impossível. A não ser uma provocação inapropriada ao São Paulo, que me fez perceber, a distância, que “Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro / Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro / Precisa se regenerar”.

Nobody move, nobody get hurt

21/10/2010

Eis que a Emetevê completou 20 anos. E resolveu sair da tumba pra lembrar os dias (cada vez mais distantes) em que era um canal de música. E mais: levou ao palco armado no Píer Mauá aquela galerinha clichê de sempre: Pitty, Frejat, Paralamas, Branco Melo, Caetano, Skank, Fresno (ou NXZero, sei lá, dá no mesmo). Até um momento de “ousadia” foi clichê, juntando Fred04, Otto-das-cavernas-ídolo-que-pegava-a-Negrini e Du Peixe, numa homenagem a Chico Science. Ou seja, old times, good times.

Mas o que me motivou ligar o computador a essa hora da madrugada foi a reunião do Planet Hemp (pronuncia-se Planet HempA). A reunion era tema de burburinhos e boatos nas últimas semanas e finalmente aconteceu nesse evento de zumbis promovido pela cadavérica ex-Music Television. Mas foi bom pra caralho.

Assim como aconteceu com o show televisionado do Pixies, quando me aterrorizei ao ver Kim Deal, minha musa de adolescência, igual a uma mamma italiana de núcleo pobre de novela, fiquei meio em choque ao ver Formigão e Rafael já meio idosos, ao lado da celebridade Marcelo Peixoto, vulgo D2, e do mítico Bernardão Erótico, vulgo BNegão. Formigão inclusive se tornou um careca-cabeludo de dreads. Mas na real o problema é meu, que também já tô bem mais idoso em relação à época em que via a poeira subir na Cantareira.

Mas foi só a malandragem soltar no palco o mantra “Ele bate no bumbo e você sente no peito (AAAAAAAAAAIIIIIII), esse é o Planet Hemp fazendo efeito” que as implicâncias viraram fumaça. E lembrei da época em que uma banda de rock podia saltar dos porões mais imundos da Lapa pro mainstream e ninguém usava roupa de hentais homossexuais japoneses pra aparecer. Até o atualmente domesticado D2 fez juz àqueles tempos. Tocaram até “Seus amigos”, porradaria hardcore que fez os seguranças do evêinto mexerem seus traseiros gordos em direção às rodinhas de pogo que a playboyzada armava na plateia de vips. Foram quatro ou cinco músicas só, tão nas coxas que nada poderia ser mais autêntico. Nada mais Planet Hemp.

Pena que foi apenas uma noite em que os zumbis saíram da tumba pra dar alguma vida à moribunda MTV.

Pesadão: o som de Grand Funk Railroad

09/10/2010

Sabadão vagabundo, tempo meio barro/meio tijolo, dia bom pra lavar roupa, varrer a casa e colocar pra tocar um dos dez melhores discos da minha humilde coleção: “E Pluribus Funk”, do Grand Funk Railroad, peça de arte do ano de 1971.

Meu primeiro contato com esse disco foi em 199erenatogauchoaindajogava, através de uma fita cassete gravada por um tio, que viveu bem os anos 70 e tinha um LP do GF. Na cassete só tinha escrito o nome da banda e das sete faixas originais. A fitinha rodou tanto nos walkmen (é assim o plural de walkman?) da vida que em pouco tempo estava pra se jogar fora. Mas enquanto ela viveu, me foi muito útil. O som do Grand Funk era pesadão e suingado ao mesmo tempo, as letras pediam paz e amor naqueles tempos de Guerra do Vietnã, numa combinação de som, fúria e perícia rara naqueles anos 90. Pensando bem, algo que só o Rage Against the Machine, a sua maneira, conseguia fazer.

E neste sábado estranho, coloco o CD (versão remasterizada, que reúne ainda quatro faixas ao vivo, de clássicos de outros discos) e lembro do peso e do balanço que só Mark Farner (guitarra, teclados, gaita e vocal), Don Brewer (bateria e percussão) e Mel Schacher (baixo) podiam fazer. E deu vontade de compartilhar, como sempre, com meus leitores imaginários. Let’s stop the war!

Três pepitas de blacktude nesta madrugada de terça

05/10/2010

Nunca fui muito fã de hip-hop e, quando moleque, detestava R&B. Mas porque o R&B e o hip-hop que tocavam nas FMs da vida e na já em decomposição MTV não ajudavam. Os anos me permitiram uma flexibilização auricular (eu disse auricular), mas é inegável que houve uma natural evolução da espécie, no caso do gênero. Digo isso porque dois dos conjuntos música/videoclipe (“é a música boa ou o clipe é irado?” é a questão filosófica) que andam frequentando o Media Player do meu notebook vêm dessa new-wave-of-R&B. Primeiro Cee Lo Green, a metade voz-fina do Gnarls Barkley, de onde saiu a coquelúchica “Crazy” uns anos atrás. O gordinho, que me lembra o Charles Barkley sei lá por que, andou provocando polêmica com sua “Fuck you”, nada mais que uma singela canção de amor. Vindo do gueto e coisa e tal, Cee Lo é exemplo do camarada que conseguiu se sofisticar, bebendo em águas passadas, seguindo as palavras do velho Francisco de Assis França: “modernizar o passado é uma evolução musical”. O primeiro clipe foi censurado, mas ele perseverou e lançou mais uma versão, que é uma beleza.

O segundo caso foi uma descoberta recente, dica do amigo Corisco do Baque Virado. Uma tal de Janelle Monáe e sua música “Tightrope”, que aliás, seria pouca coisa sem o clipe, que por sua vez não teria graça sem a inacreditável dancinha. O corpo de baile está de parabéns. Na ocasião, Corisco Malungo me disse: “Não veja o clipe na firma, você vai querer levantar da cadeira”. Segui a dica e evitei o constrangimento certo frente a meus finos colegas de trabalho. Sem mais, a serelepe Janelle:

Um fator comum entre o Charles Barkley gorducho e a espoleta topetuda é o Outkast. O duo Big Boi e Andre 3000 está presente na carreira de ambos. E é também um marco nessa guinada da black music contemporânea, abrindo ainda mais o leque de opções do hip-hop e similares, quebrando um pouco a batida monótona dos figurões do gênero metidos a gangstas. Eu poderia até colocar aqui “Hey ya!”, que foi engraçadinha no começo, mas já enjoou. Só pra me contradizer, vou de “Git up git out”, da fase mais ” uh-tererê” dos camaradas. Com participação, inclusive, do Cee Lo, menos gordo, mas ainda a cara de “Sir” Barkley.

La argentinidad al palo…

20/09/2010

Sábado passado meu amigo mais antigo me apresentou a um camarada hermano dele como “um apreciador da cultura argenta”. Achei um pouco exagerado, mas, che, o pelotudo tinha razão. Coincidência ou não, um dia depois finalmente consegui baixar a discografia completa dos Fabulosos Cadillacs, espécie de Paralamas do Sucesso do sul do Rio da Prata. E me tornei um pouco mais fã desse povo de “gallegos, judíos, criollos, polacos, indios, negros, cabecitas… pero con pedigree francés”. Não vou negar, gosto pra cacete da música de lá, do churrasco de lá, do futebol de lá. Moraria facilmente em Buenos Aires e acho Maradona melhor que Zico.

Então vão a seguir três pepitas dessa argentinidad contagiante. Antigas, é verdade, como a época em que Buenos Aires era coisa séria, e não ponto de encontro de brasileiros em feriadão.

Los Fabulosos Cadillacs, com “Mal bicho”: tente manter o culo en la silla, che.

Bersuit Vergabarat, com “La argentinidad al palo”: o verdadeiro hino argento.

Maradona cantando “La mano de Dios”, cena do documentário de Emir Kusturica: padre-nuestro roquenrol.

Três músicas numa noite de setembro

15/09/2010

Deu vontade de compartilhar três músicas que fizeram a minha cabeça nesta chata noite de setembro, em que a única coisa divertida foi ver um time de anões (aquele onde joga o mini-Pet) no Jô Soares.

Ainda de tarde, sei lá por que, entrei na internet pra procurar uma música dos Los Tigres del Norte, um antigo fenômeno fonográfico e cultural dos dois lados do Rio Bravo. Mexicanos que vivem entre Tihuana e LA, tocando a mais fajuta música norteña, um estilo ultra popular entre os chicanos, falando de traficantes de drogas, amor, crimes passionais e política. Neste último tema se encaixa “Somos más americanos”, que ouvi num táxi em Chiapas e que, em determinada altura, fala que os cucarachas são mais americanos que toditos los gringos:

Depois finalmente baixei no meu computador a música número 1 da minha rádio mental neste último mês. Não sei por que eu gosto dela, mas o fato é que quando toca, ninguém fica parado. Com vocês Pitbull, americano filho de cubanos mas com malandragem e mau-caratismo de brasileiro. Se a música é um mistério, o clipe é um clássico:

Por fim, no apagar das luzes, uma voz misteriosa me disse: “Here on Monday seems like Friday”. E pronto, já estava no youtube procurando este sensacional video da ainda mais sensacional “Ah-ha”, dos inomináveis Butthole Surfers, donos de um dos melhores discos que já ouvi: “Eletriclarryland”, de 199ealgumacoisa. Um dia ainda falo mais sobre os caras, totalmente injustiçados pela história. Ouçam e aprendam, crianças, o que era música: